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Monstro Invisível

Já que não posso ser belo, quero continuar invisível...

Monstro Invisível

Já que não posso ser belo, quero continuar invisível...

Those were the days...

Outubro 16, 2013

Monstro Invisivel

"Porém, o mais interessante veio depois. Há alguns anos conheci uma amiga de uma amiga, mas só recentemente, devido àqueles acasos da vida, é que passámos a contactar mais e deparei-me com uma bela surpresa. Não pela vertente estética claro, pois isso há muito que estava à vista: baixa, morena, magra, olhos castanhos que parecem ter um leve traço oriental e um sorriso rasgado, que transborda traquinice – uma Shakira lasciva de cabelo mais curto. Mas mais importante do que a sua apetitosa aparência era o sentido de humor arrebatador, a alegria de viver (presente até nos seus momentos de tristeza) e a inegável inteligência.

Graças a ela, de há umas semanas para cá, as sextas-feiras passaram a ter um sabor especial… Nessas noites, habitualmente, ela passa por minha casa a horas tardias e planeamos ver um filme, mas acabamos por ignorar o que decorre no ecrã e falamos horas consecutivas, até o sol nascer. Nunca diria que, com a minha aversão ao diálogo, fosse capaz de conversar durante tanto tempo seguido.

Com o tempo e com a empatia, começou a despontar uma química que nos levou para outros caminhos. Tudo isto em fases tacitamente muito delimitadas: primeiro, foi o adormecer agarradinhos; depois, os beijos na boca e os apalpões; a seguir, o dormir só de cuecas; e, por fim, o sexo. E que sexo… Disse-lhe vezes sem conta:

      - A minha vida está dividida em dois momentos: os dias antes de tu vires e os dias depois de tu te vires…

Foram dias mágicos, com o toque ébrio da paixão a fazer-me levitar e a chegar ponderar mudar de vida para algo mais ‘normal’, partilhar, viver a dois. Contei-lhe quase tudo, os segredos mais íntimos, as dores mais profundas, o plano para me suicidar… Contudo, não me parece que o ser humano seja talhado para longas relações amorosas e caí demasiado depressa na tentação de querer cada vez mais, até ao momento em que o bonito sentimento que floresceu inicialmente já não era correspondido. E eu a julgar que o meu caso seria sempre diferente, quando, afinal, não sou o único a pensar que sou único…

Tudo se foi desmoronando, igualmente por fases, e, passado pouco tempo, estava acabado: o sexo, o dormir juntos, os beijos, os encontros, as conversas, as sextas-feiras… Tivemos uma única discussão e pensei que nunca mais a veria na minha vida.

      - Faz como quiseres, não quero saber, podes pegar nessa pachachinha e levá-la para outro sítio qualquer! – disse a determinada altura e arrependendo-me instantaneamente à medida que as palavras iam saindo da minha boca.

Ainda tive esperança que, no momento de silêncio que se seguiu, ela percebesse como certas palavras são, no fundo, insignificantes, mas, infelizmente, ela compreendeu que certas palavras são inesquecíveis. À porta de casa, olhámos um para o outro. Os sentimentos tornam-se extremamente intensos e os sons triviais. Ela lança aquele característico olhar lascivo, com a cabeça inclinada para baixo e a morder ligeiramente o lábio inferior, e diz:

      - Agora dou-te total razão em duas coisas que escreveste nuns mails que trocámos: “As palavras são absolutamente desnecessárias, apenas podem fazer mal” e “Promessas são proferidas no momento apenas para serem quebradas posteriormente”. Acho que é uma boa síntese final dessa entidade colectiva que designávamos por ‘Nós’… See you, baby… - e fechou a porta, despedaçando o meu coração no exacto momento em que ouvi o barulho da fechadura; foi como se ela tivesse roubado as chaves do meu coração e depois se tivesse trancado do lado de fora…

 

Restou-me regressar à rotina, à monotonia, às diversas formas de fazer amor com a minha mão, à melancolia e à falta de forças e motivos para continuar a viver. Como eu gostava que a vida fosse algo mais do que esta inesgotável solidão… Algo devia mudar, mas o meu dilema reside no facto de não querer ser um fardo para ninguém. Passo as noites a sonhar acordado com a possibilidade de conseguir dormir decentemente…"

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